Poucas coisas me amedrontam
e a maior delas é a solidão.
Aquela que nos toma por inteiro.
A solidão da morte em vida.
O sentir-se só em meio a tantos olhos
que poderiam nos compreender,
a tantas bocas que poderiam nos encorajar,
a tantos braços que poderiam nos enlaçar,
a tantas mãos que poderiam nos tirar do
abismo de nós mesmos.
É esta a solidão que me amedronta:
a de encapsular-me em mim,
mesmo sem querer,
mas apenas por medo de ser excluída
desse mundo de olhos, bocas, braços e mãos
tão estranhos e alheios a tudo.
Sinto medo da solidão de ser rejeitada.
De querer abrir minha alma
e escancarar meu coração,
de me lançar a um corpo estranho,
num abraço amigo e não ser compreendida.
Sinto receio imenso de que meus olhos e braços,
minha boca e mãos demonstrem buscar
o que realmente não procuram.
De que o entendimento alheio seja
além do aquém de minha insana procura.
Tenho medo, sim, de que, inconscientemente,
eu me transforme em uma cápsula
de sentimentos inexplorados,
de carências eternas,
de desejos delirantes,
de carinhos retidos.
Ah, quanto receio tenho de
que tudo o que vivi,
todo o meu sofrimento,
a felicidade experimentada,
sumam pelo ralo da vida.
Como se eu simplesmente não tivesse existido.

 






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