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Eu não tenho medo dos meus cabelos
que estão embranquecendo.
Nem das rugas que tomam conta do meu rosto.
Mentiria se dissesse o mesmo da
visão que já não é a mesma.
Entretanto, também não me
amedronta o brilho da
juventude que se vai,
algumas habilidades e
capacidades físicas que
já não são as mesmas.

Não posso dizer que não me
incomodam as gorduras
acumuladas em meu corpo,
a flacidez de tantas partes
um dia firmes,
a celulite que teima sempre
em fazer parte de
cada parte de mim.
E tudo isso se multiplica
tão rapidamente!

Entretanto, é muito bom olhar
para trás e constatar
o quanto da montanha escalei.
Recordar experiências,
arrepender-me de pecados,
orgulhar-me de virtudes.

Simplesmente ter ciência de que vivi e,
principalmente, de que, por isso,
tenho em mim todas as
que fui um dia:
o bebê,
a criança,
a adolescente,
a moça e
agora vem a mudança mais brusca:
a “envelhescente”.
Todas foram passagens.

Entretanto, a atual tem
sido a mais plena,
pois tenho o segredo do tempo,
o conteúdo da vida e, assim,
quero tentar caminhar
sem urgência,
amando com mais intensidade,
discernindo com menos
preocupação,
dando-me, inclusive,
o direito de agir,
em alguns momentos,
como qualquer eu que me habita:
um bebê carente,
uma criança mimada,
uma adolescente apaixonada
ou uma moça que acha
que será eternamente jovem.

Entretanto, quero ser exatamente
esta que está envelhecendo
e quero tentar viver
sem cronometria,
com a consciência de
que a minha realidade
e os sonhos que vivi
serão importantes
na minha escalada até o pico.
Serão aliados para que
eu possa desvendar os labirintos
que estão por vir,
para que eu possa viver
sem medo de errar.

O que eu fui e vivi até hoje
é a bagagem que tenho
para envelhecer.
E sei que é o bastante.


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